Morar Sozinho
A melhor coisa que pode acontecer a um homem é a possibilidade de morar sozinho. Chegar em casa à noite e encontrar o mesmo papelzinho amassado, com o endereço precioso que se deixou pela manhã. Mesmo que seja a manhã de terça da semana passada. Você pode ligar o rádio, a tevê e ainda ouvir, ao mesmo tempo, o CD preferido. Além de não ter que dividir a lâmina de barbear com ninguém, muito menos com axilas alheias.
Quer coisa melhor do que assistir aqueles debates esportivos na tevê, sem ninguém para reclamar? E a luta de box, então? E comer biscoito na cama, ou ficar horas no banheiro lendo qualquer coisa sem ninguém pra bater na porta? Que porta? Usar o banheiro de porta aberta mesmo.
Alguns dirão que sou egoísta. Ou avesso a família. Pode ser. Mas custei a compreender as delícias indescritíveis, as vantagens inenarráveis e os encantos indisfarçáveis de se morar sozinho. Família faz falta, sim. Mas para estar junto não precisa morar junto. Até porque, como dizia o poeta, incompatibilidade de gênios entre parentes é cada um apertar de seu jeito o tubo de pasta de dentes.
Os homens se acostumam com companhia. Tornam-se dependentes, como viciados, da atenção dos outros. Criança, menino divide o quais com os pais; cresce um pouco, divide o quarto com os irmãos; rapaz, vai morar com os colegas de faculdade. Aí, já totalmente entorpecido pela dependência, viciado por todos os poros e contaminado por todas as veias, casa e vai dividir a casa, cama e guarda-roupa. Só depois, já separado, recuperado do vício após duras noites insones numa cama imensa, incontáveis incursões por barzinhos e terríveis apuros do tipo “e se ela falar menas e probrema amanhã quando acordar?”, é aí que o homem amadurece e descobre os encantos de morar só.
Morei uns tempos com um amigo. Não podia entender como é que ele, amigos de longas datas, de repente se irrita-se comigo só porque eu usava o espelho do quarto, na porta do guarda-roupa, para atualizar o visual, mudando estrategicamente a posição do reflexo na cama, cuidadosamente preparada para batalhas noturnas.
Casa é como carro, a gente regula o banco, e o espelho retrovisor para nossa altura e jeito de sentar. .
A melhor coisa da solidão é poder ir ao banheiro e deixar a porta aberta. Mas não é só isso. Fazer de sua casa um verdadeiro forte, sua toca, seu mundo. Transformar aquelas paredes caladas, na sua verdadeira fortaleza, onde podem conviver suas bagunças com papéis esparramados pelo chão, ter por testemunha apenas o criado do mudo (que de quebra, é cego e surdo) e poder escolher suas companhias como quem seleciona seus e-mails. Isso sim que é morar bem.
E não pensem, por favor, que estou fazendo apologia a bagunça. Ao contrário. Um amigo, aparentemente avesso a qualquer perfil de dona-de-casa, espantou-me ao explicar os cuidados que deveria ter com a casa, inclusive ensinando alguns truques. Me encheu de informações que mais parecia manual de computador.
Eu mesmo tenho regras rígidas sobre a utilização dos apetrechos domésticos. Como a forma de abrir a caixinha do leite, ou o uso correto de facas e colheres. Quer dizer, tem faca que é só pra descascar laranja, não me venha um intruso cortar pizza com ela. Minha casa, modéstia a parte, é muito organizada. Principalmente quando sei que vou receber visitas.
“Quando em seu coração reina a paz, de menor casa um palácio se faz”, dizia a inscrição do pano de prato. Pode ser. Desde que a casa seja nossa e agente more sozinho. Pelo menos, na maior boa parte do tempo.
Guilherme Soares é profissional de publicidade e idealizador do agitoAraraquara, e claro, mora sozinho.
Quer coisa melhor do que assistir aqueles debates esportivos na tevê, sem ninguém para reclamar? E a luta de box, então? E comer biscoito na cama, ou ficar horas no banheiro lendo qualquer coisa sem ninguém pra bater na porta? Que porta? Usar o banheiro de porta aberta mesmo.
Alguns dirão que sou egoísta. Ou avesso a família. Pode ser. Mas custei a compreender as delícias indescritíveis, as vantagens inenarráveis e os encantos indisfarçáveis de se morar sozinho. Família faz falta, sim. Mas para estar junto não precisa morar junto. Até porque, como dizia o poeta, incompatibilidade de gênios entre parentes é cada um apertar de seu jeito o tubo de pasta de dentes.
Os homens se acostumam com companhia. Tornam-se dependentes, como viciados, da atenção dos outros. Criança, menino divide o quais com os pais; cresce um pouco, divide o quarto com os irmãos; rapaz, vai morar com os colegas de faculdade. Aí, já totalmente entorpecido pela dependência, viciado por todos os poros e contaminado por todas as veias, casa e vai dividir a casa, cama e guarda-roupa. Só depois, já separado, recuperado do vício após duras noites insones numa cama imensa, incontáveis incursões por barzinhos e terríveis apuros do tipo “e se ela falar menas e probrema amanhã quando acordar?”, é aí que o homem amadurece e descobre os encantos de morar só.
Morei uns tempos com um amigo. Não podia entender como é que ele, amigos de longas datas, de repente se irrita-se comigo só porque eu usava o espelho do quarto, na porta do guarda-roupa, para atualizar o visual, mudando estrategicamente a posição do reflexo na cama, cuidadosamente preparada para batalhas noturnas.
Casa é como carro, a gente regula o banco, e o espelho retrovisor para nossa altura e jeito de sentar. .
A melhor coisa da solidão é poder ir ao banheiro e deixar a porta aberta. Mas não é só isso. Fazer de sua casa um verdadeiro forte, sua toca, seu mundo. Transformar aquelas paredes caladas, na sua verdadeira fortaleza, onde podem conviver suas bagunças com papéis esparramados pelo chão, ter por testemunha apenas o criado do mudo (que de quebra, é cego e surdo) e poder escolher suas companhias como quem seleciona seus e-mails. Isso sim que é morar bem.
E não pensem, por favor, que estou fazendo apologia a bagunça. Ao contrário. Um amigo, aparentemente avesso a qualquer perfil de dona-de-casa, espantou-me ao explicar os cuidados que deveria ter com a casa, inclusive ensinando alguns truques. Me encheu de informações que mais parecia manual de computador.
Eu mesmo tenho regras rígidas sobre a utilização dos apetrechos domésticos. Como a forma de abrir a caixinha do leite, ou o uso correto de facas e colheres. Quer dizer, tem faca que é só pra descascar laranja, não me venha um intruso cortar pizza com ela. Minha casa, modéstia a parte, é muito organizada. Principalmente quando sei que vou receber visitas.
“Quando em seu coração reina a paz, de menor casa um palácio se faz”, dizia a inscrição do pano de prato. Pode ser. Desde que a casa seja nossa e agente more sozinho. Pelo menos, na maior boa parte do tempo.
Guilherme Soares é profissional de publicidade e idealizador do agitoAraraquara, e claro, mora sozinho.











